A
materialização de espíritos é um dos aspectos mais interessantes
estudados no espiritismo, mas não é "propriedade" desta doutrina em
particular. A vinculação se deu porque, nos primórdios do espiritismo,
ainda na França, o fenômeno foi muito estudado e ganhou publicidade e
respaldo de cientistas, que viam no espiritismo um novo ramo da ciência.
Antes disso, os fatos a esse respeito eram vistos com reservas e
segredos (e depois disso também, aliás, e o melhor exemplo é o
Museu das Almas do Purgatório, pertencente à Igreja Católica e que quase nenhum católico conhece).
Em
ocasiões especiais (e não me perguntem quais, pois ainda não sei) um
espírito faz-se visível a nós, encarnados, sem a necessidade de um
médium. Algumas vezes só para uma pessoa, como o que
eu vi
(e pode ser o caso dessa pessoa ter uma mediunidade aguçada), outras
vezes para todos, indistintamente. O processo envolve uma "baixa" na
vibração do corpo espiritual, grosso modo como um
disco de cores do Newton,
que ao diminuir sua rotação podemos divisar as cores que até então não
víamos. Para o caso dos espíritos, ainda não há uma explicação
científica aceitável, mas pelo que se sabe isso envolve a reunião dos
fluidos vitais (algo parecido com a nossa "energia animal") de um médium
ou de um grupo de pessoas para tornar o espírito um pouco mais...
"vivo".
Em outros casos, o espírito utiliza-se de uma "cobertura"
de ectoplasma, um líquido viscoso produzido pelo corpo e que sai de
dentro do médium por TODOS os orifícios (urgh) e por algum motivo é
moldável com o pensamento. Achou que isso só existia no filme Os
Caça-Fantasmas? ERROU! A matéria que compõe o (saudoso) Geléia foi
batizada por Charles Richet de
Ectoplasma (do greo
ektós, fora, exterior, e
Plasma).
É uma substância viscosa, esbranquiçada, quase transparente, com
reflexos leitosos, evanescente sob a luz, e que tem propriedades
químicas semelhantes às do corpo físico do médium, donde provém.
Quimicamente, ela possui muita semelhança com a massa
protoplásmica, é extremamente sensível a eletricidade e magnetismo, podendo ser moldável pelo pensamento e
vontade do médium que o exterioriza, ou dos Espíritos desencarnados, podendo assim eles atuarem sobre a matéria.
O
aspecto diáfano e pouco detalhado dessas aparições se caracteriza pela
própria natureza da materialização ectoplasmática: é como se você
embrulhasse uma comida com um filme plástico, só vai ser vista as formas
grosseiras, nunca os detalhes. Outro método dos espíritos deixarem
suas marcas é mergulhando a "mão espiritual" deles em cera quente. O
resultado é que aparece DO NADA o molde de uma mão, ou uma rosa (eu já
vi uma rosa dessas num centro espírita) ou qualquer coisa que o espírito
plasmar com o pensamento.
Vários médicos e cientistas
analisaram, à época de Kardec, o fenômeno da materialização. Vários
métodos para evitar fraudes, muitos humilhantes para o médium (como
amarrá-lo e deixá-lo nu) foram feitos, e mesmo assim as materializações
ocorriam. Já em 1870, o conceituado físico e químico inglês
William Crookes,
descobridor do elemento "Talio" (TI) e membro da Sociedade Real
Inglesa, estudou o fenômeno. Tudo começou quando o cientista decidiu
acabar de vez com aquela idéia absurda de que "espíritos" poderiam se
materializar. "
Vou provar tratar-se de uma ilusão vulgar",
anunciou. Mais de três anos após o início de suas pesquisas, Florence
Cook - uma médium de 17 anos considerada um fenômeno na sua época, mas
que havia sofrido denúncia de fraude - ofereceu-se a Crookes e sua
esposa para ser pesquisada, aceitando quaisquer condições. O relatório
escrito pelo cientista era quase uma heresia. A adolescente, quando em
transe, liberava tanto ectoplasma que dava vida a uma outra forma
feminina: Kate King, capaz de andar e falar por mais de duas horas
seguidas. Florence era baixa e morena. Kate era alta, loura e aparentava
ter 35 anos. O relato era minucioso e apresentava até as pulsações,
completamente diferentes, da viva e da morta. Para arrematar, Crookes,
anexou à sua narrativa 48 fotografias.
Segundo Gabriel Delanne,
"William Crookes foi, na Europa, o primeiro cientista que teve o valor
de comprovar, escrupulosamente, as afirmações dos espíritas. Muito
cético, a princípio, suas investigações o conduziram progressivamente à
convicção de que esses fenômenos são verdadeiros e não titubeou um
único momento em proclamar, em alto e bom som, a certeza em que
resultou o seu trabalho. A partir de então outros pesquisadores o
seguiram, como
Alfred Russel Wallace,
Oliver Joseph Lodge,
Frederic William Myers,
Richard Hodgson seguem pela senda aberta. Na Alemanha, cientistas eminentes como Friedrich Zöllner, Weber, Ulrici, o dr. Frièze e Carl Du Prel
rendem-se
à verdade que passam a defender. Na Rússia, Aksakof e Butlerof (da
Universidade de São Petersburgo). Na Itália, o professor Falconer,
Chialia, Broffério, Finzi, Schiaparelli e o próprio
César Lombroso são levados a confessar a exatidão dos fenômenos que antes punham em dúvida. Na França, Gibier, Richet, De Rochas e
Camille Flamarion comprovam a mediunidade de Eusápia Paladino."
Flamarion,
conceituadíssimo astrônomo francês - para muitos cientistas
considerado o "Carl Sagan do século XIX" - conterrâneo e amigo pessoal
de Allan Kardec, afirmou:

"Porque, senhores,
o Espiritismo não é uma religião, mas uma ciência, da qual apenas conhecemos o ABC.
O tempo dos dogmas terminou. A Natureza abarca o Universo. O próprio
Deus, que outrora foi feito à imagem do homem, não pode ser considerado
pela Metafísica moderna senão como um espírito na Natureza. O
sobrenatural não existe. As manifestações obtidas através dos médiuns,
como as do magnetismo e do sonambulismo, são de ordem natural e devem
ser severamente submetidas ao controle da experiência. Não há mais
milagres. Assistimos à aurora de uma Ciência desconhecida." (...)
"Aquele cuja visão é limitada pelo orgulho ou pelo preconceito e não
compreendem esses desejos ansiosos de nossos pensamentos, ávidos de
conhecimentos, que atirem sobre tal gênero de estudos o sarcasmo ou o
anátema! Nós erguemos mais alto as nossas contemplações!"
Estranho
que as mentes mais brilhantes de sua geração tenham sido enganadas em
diversos países com jogos de espelho e truques baratos... Afinal, esse é
o pensamento da comunidade científica atual que, ao contrário de seus
brilhantes antecessores, não se interessam por esses assuntos
"transcendentais".
Seja como for, o fenômeno não parou com a falta
de interesse. Apenas foi relegado ao ostracismo, até que Chico Xavier e
outros poderosos médiuns pudessem ser o veículo para dar ao Brasil
demonstrações dramáticas de que a vida continua. Um deles era Francisco
Peixoto Lins, o Peixotinho. Convidado a ir a Uberaba, ele se
apresentou a Chico Xavier e uma seleta platéia, que incluía o delegado
de polícia paulista R. A. Ranieri. Marcel Souto Maior nos relata o
ocorrido, no livro
As Vidas de Chico Xavier:
"Às
oito da noite em ponto, uma lâmpada vermelha iluminou a platéia. Mais
de quinze pessoas, entre elas Chico Xavier, iniciaram o rito, de acordo
com o regulamento espírita: leitura de trechos evangélicos, seguida de
comentários, "para atrair espíritos de ordem superior", acompanhada
por música clássica, "para facilitar a aglutinação fluídica" e conduzir
os participantes a uma vibração positiva. Ave Maria, de Gounod, tomou
conta do ambiente. Da cabine onde estava Peixotinho saíram clarões
coloridos. O corredor foi atingido por reflexos verdes, roxos e azuis.
De repente, apareceu na sala um visitante fluorescente. Diante de olhos
atônitos, alguns deles desconfiados, começou o desfile de
assombrações.
Um dos perplexos na platéia era o delegado de
polícia paulista R. A. Ranieri. Naquela noite, ele foi surpreendido
pela visita de uma réplica iluminada de sua filha, Heleninha, morta
três anos antes, com dois anos de idade. A garota "saiu" do corpo de
Peixotinho e "ressuscitou", quase em neon, com a mesma fisionomia e
estatura dos tempos de viva e com a voz semelhante à original.
Cumprimentou o pai e colocou nas mãos dele uma flor brilhante.
Era ela, sem dúvida nenhuma - garantiu Ranieri.
E exigiu credibilidade.
Ficou
tão convencido da autenticidade dos fenômenos que escreveu um livro
sobre o assunto, intitulado "Materializações Luminosas".
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